Postando Textos

Compramos o sonho

21/01/2015
post sonho

Apesar de ser uma pessoa relativamente desligada e desatenta para mil coisas que acontecem no meu dia a dia, eu sou bem observadora quando o assunto gira em torno do comportamento humano. Em algum momento da vida desejei ser psicóloga, não porque eu sou uma ótima conselheira, mas porque sempre tive curiosidade sobre as motivações humanas mais profundas para os nossos comportamentos.

Este ano o Small completa 6 anos de existência e neste tempo eu pude observar não só o tipo de envolvimento das minhas leitoras em relação ao meu blog, quanto a forma como outros blogs de moda/vida/etc se desenvolveram e ganharam públicos fiéis. Em tempos de redes sociais, cheguei a algumas conclusões que poderiam ser tema de tese (caso já não sejam).

Compramos o sonho.

Compramos, no sentido de consumir, claro, porque o sonho mesmo custa muito caro. Mas o que eu quero dizer com esta frase é que blogs e perfis de garotas que usam dezenas de marcas milionárias e maravilhosas, que viajam pelo mundo de classe executiva e comem nos melhores restaurantes, que usam saltos altos sem fazer calo, frequentam spas, têm personal trainer, cortam o cabelo nos melhores salões, têm vidas sociais agitadas, festas e pontes aéreas loucas, idas a Miami, maquiador e fotógrafo sempre à disposição, nos encantam pelo simples fato de mostrarem uma realidade à qual dificilmente teremos acesso como pobres mortais. E o Small e tantos outros blogs de amigas “não-ricas” kkkkk vendem uma realidade tão mais próxima da maioria das mulheres, que acabam crescendo a uma velocidade infinitamente inferior aos blogs “ricos”, porque a nossa realidade já é familiar logo, menos interessante. A “vida real” não é um must-have. Na realidade do Brasil então, é quase um must-forget. E por isso queremos ver fotos lindas, comidas lindas, paisagens lindas, imagens inspiradoras. Por que “pobreza e realidade” só vendem quando fazem parte de um discurso exótico para servir como pano de fundo para o luxo.

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Alessandra Ambrósio e Cara Delevingne em ensaios “favelísticos” para a Vogue Brasil.

Eu confesso: sou uma dessas seguidoras que acompanha a vida de dezenas dessas meninas que, além de abençoadas pela beleza, riqueza e elegância, têm um talento e inteligência especial para os negócios e transformam suas vidas num reality show lucrativo que eu, particularmente, adoro assistir. De verdade, sem inveja e sem falar mal, porque acho muito babaca quem perde tempo seguindo pessoas para xingar e usar sua “liberdade de expressão” pra ofender quem nem conhece.

Eu sigo, curto e admiro a vida dessas garotas e entendo que a realidade delas não é menos real que a minha. É apenas diferente. E essa realidade aumentada com lentes e filtros poderosos, com possibilidades sem limites, é o que faz com que esses blogs e perfis tenham tanto sucesso. Elas podem vestir Renner hoje e Valentino amanhã ou os dois juntos e serem descoladas, transitando entre a nossa realidade e a realidade delas. Nós só podemos vestir Renner, mas queremos sonhar com Valentino. Nós comemos arroz com feijão, mas queremos sonhar com pato confit acompanhado de batatas rústicas e aspargos. Somos humanos.

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Meus it perfis preferidos – @camilacoutinho e @sincerlyjules: sonho sem ostentação.

Não, não é o Small, um blog de looks de fast-fashion, que vai ativar nosso sentido mais primitivo de desejo e ambição (saudável, claro), de mover mundos e fundos por uma vontade (ainda que material). Não é aquele blog de moda super bem escrito e cheio de informação ultrabacana, não é aquele outro cheio de dicas legais, não é o offprice, o plus size ou o mais criativo blog de moda que vai movimentar milhões de acessos por mês. O Small (e tantos outros) vai apenas mostrar que dá pra ser feliz com o que temos, mas não dá pra ser perfeita, ter a maquiagem em dia e viver num sonho. E querer um sonho pode não ser ruim, tá? Mas é impossível.

Muitas dessas meninas são hoje, o que eram as modelos, atrizes e cantoras, para nós no passado. Elas ditam, inspiram e imprimem seu estilo de vida no nosso dia a dia e é quase impossível não nos rendermos aos encantos dos seus vestidos bordados. O que gostamos de ver é aquilo que não podemos ter (seja agora, seja a longo prazo), tipo amor cafajeste. É tão humano e tão verdadeiro, que chega ser estranho ter que dizer isso, mas eu sei, por exemplo, exatamente as fotos que mais vão fazer sucesso no meu instagram, porque são aquelas que trazem os sentimentos de desejo irreal: praias paradisíacas e poses de diva. hehehehe Nós consumimos o sonho, o aspiracional, o impossível e até mesmo o que não existe. Nosso ideal de vida é impossível, nosso padrão de beleza é impossível, nossa concepção de amor é impossível e é impossível para todo mundo, inclusive para elas, já que muitas fazem da vida uma correria insana que eu nem invejo, porque sei que essa vida tem um custo que eu, Carolina, não gostaria de pagar. Só de receber, claro. hahahah

Se por um lado esse “amor platônico” gera uma série de inseguranças, frustrações, rompantes de ódio e inveja, por outro alimenta um desejo muito poderoso de conquistar mais e melhor. A gente aprende a admirar a vida do outro e a trabalhar para buscar experiências semelhantes. Vejo perfis de meninas que hoje têm milhares de seguidoras porque postam apenas roupas maravilhosas, maquiagens perfeitas, cabelos sem um fio fora do lugar e nada, absolutamente nada tão real quanto uma unha descascada ou um look de metrô. E é ok seguir esses perfis, desde que saibamos discernir o que nos faz bem e o que nos incomoda. (e em caso de incômodo, apenas paramos de seguir, sem xingamentos)

Eu ando de metrô, você anda de metrô, todo mundo anda de metrô, mas a gente quer ver o sonho de andar de metrô em Nova York, com um visual high-low que mistura um trench coat Burberry com tênis allstar furado. É claro que eu falo por mim (e por amigas com quem já debati este assunto) e sei que muitas mulheres podem não se identificar com nada neste texto, mas acredito que todas nós, em algum momento da vida, desejamos alguma coisa muito fora da nossa realidade, porque o sonho não custa nada e a realidade às vezes custa até de acreditar.

Aí eu vejo toda uma comoção em prol da mulher real, a beleza real, o corpo real, da vida real e penso: será que as pessoas realmente querem ver isso? Se quisessem, porquê falariam do nariz de uma menina, do joelho da outra, da gordura de não sei quem? Será que vão realmente consumir essa realidade? Acredito que não, porque se fosse assim as “blogueiras da vida real” seriam verdadeiras It-girls. E tenho um exemplo pessoal de como essa vontade de ter o sonho funciona mais do que a vontade de ver a “realidade”: uma das fotos mais curtida da história do meu instagram não é a que eu estou desenhando uma nova ilustração, é aquela em que eu estou totalmente fora da minha realidade, numa lancha (que não é minha), de biquini (da minha loja), curtindo a vida glamurosa (e sem dinheiro), numa ilha paradisíaca (com mil pessoas), com o sorriso de quem acabou de ganhar na mega-sena (só que não).

É um sonho, ainda que breve.

Beijos, Carols

Guia RJ, Viagem

Um olhar do paraíso

20/01/2015
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O título é, na verdade, um pequeno furto de um filme homônimo que eu adoro (e super indico!). O filme não tem nada a ver com praia, é triste, um suspense quase terror, mas o título dele se encaixa tão perfeitamente no post de hoje, que eu fui forçada a abusar da licença poética. Sim, eu olhei o paraíso de perto e nem precisei sair deste plano pra isso acontecer.

Este fim de semana que passou fui para Ilha Grande, uma ilha (dãhh) que faz parte do município de Angra dos Reis, ao sul do Rio de Janeiro. Alguns amigos já tinham visitado Ilha Grande e falaram mil maravilhas do local, mas eu precisei ver essa maravilhosidade com meus próprios olhos míopes e agora vou relatar como foi chegar lá saindo do Rio de Janeiro.

1) Alugar um carro é uma ótima opção. No aeroporto Santos Dumont tem várias locadoras com preços diferentes. Do Santos Dumont até o local onde pegamos os barcos para seguir até Ilha Grande, são aproximadamente 107 km, ou seja, 1h40min de carro, numa velocidade normal, sem correria e sem pegar trânsito. Basta chegar na Av. Brasil (oi oi oi!) e seguir sempre em frente até a BR 101. Cem quilômetros depois a gente entra no município de Mangaratiba e segue até Conceição de Jacareí, que é o cais mais próximo de Ilha Grande (aprox. 11km de percurso de barco). Usem o Google Maps que dá super certo e a voz da moça é ótima.

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Eu não sei vocês, mas eu nasci com o estômago fraco, de forma que não encaro qualquer tipo de embarcação. Em Conceição de Jacareí tem várias agências de turismo e o traslado de ida e volta da ilha sai em torno de R$ 50 por pessoa indo numa lancha rápida (minha escolha). Uns 20 minutinhos de trajeto. Quem for corajoso, pode ir de escuna e passar 1h enjoando. Boa sorte. ahahahhaha

Chegar em Ilha Grande é uma espécie de emoção indescritível. O Rio de Janeiro é abençoado demais. É muita beleza, gente. Eu fiquei embasbacada com aquela natureza tão violenta. Lindo, lindo, lindo. A principal parada de Ilha Grande é na Praia do Abraão, o ponto central da ilha, de onde saem todos os passeios. O maior vuco-vuco-farofa. Parece coisa de filme. Tem várias pousadinhas, bares, agências de turismo, campings, taxiboats, loucura.

2) Não fiquei no furdunço de Abraão. Fui para um hotel em Praia Brava de Palmas (uma das inúmeras praias da ilha) e foi um perrengue pra chegar lá. O motivo? Encontrar um taxiboat que aceitasse cartão de crédito. COMO EU NÃO PENSEI NISSO????? Na verdade eu pensei que, sendo o Brasil tão brasileiro, era provável que qualquer dinheiro transportado para a ilha fosse saqueado por piratas e por isso não deveria ter caixa eletrônico em Ilha Grande (acabei confirmando com os locais que meu pensamento estava certo, infelizmente). Só que eu pensei nisso quando já estava dentro do barco a caminho da Ilha. HAHAHAHAH Gênia. Cheguei com míseros R$ 22 na carteira e o taxiboat para Palmas custava R$ 25. Aliás, R$ 25 é o preço-chave em Ilha Grande. Todo lugar que íamos era R$ 25. Pra não dizer que a Ilha não tem dinheiro nenhum, tem uma agência da Caixa que não tem caixa eletrônico, ou seja, o saque é direto no balcão, dias de semana (eu cheguei no sábado, aplausos). Tive que bolar um plano master de sentar num bar e pagar a conta alheia pra ficar com o dinheiro do povo e conseguir chegar na minha praia. HAHAHAHAH #carolmcgyver

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3) Ao chegar em Palmas e descer do taxiboat, descobri que o Hotel Cabanas do Paraíso, onde eu estava tentando chegar desde as 11 da manhã (e já era 16h!) era na praia ao lado, chamada Praia Brava. Então encarei uma trilha “ótima” pelo meio do mato, entre uma praia e outra, com uma mala de viagem. Só sendo muito imbecil mesmo pra levar uma mala de rodinhas com várias roupas, pra uma ilha. Eu fui essa pessoa. Mas fiquei feliz de perceber que outras pessoas tiveram essa mesma ideia estapafúrdia.

Chegando em Praia Brava o paraíso se materializou de verdade, em forma de mar calmo, praia vazia, hotel super agradável, cabanas maravilhosas, bom gosto, lençóis limpinhos, banheiro incrível, comida boa, coqueiros fotogênicos, um pavão! e um cachorro fofo. Apesar de ser uma cabana de praia, tinha todo o conforto de um quarto de hotel de verdade. Achei digno porque já passei da idade de montar barraca em acampamento com mosquito. Passei o resto do dia dentro do mar, marinando e mergulhando com os míseros peixes que eu vi.

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Fauna local: o pavão do e os passarinhos do hotel, a tartaruga que vimos na praia de Maguariquessaba e os únicos peixinhos da Lagoa Azul

6) Aproveitei que estava numa ilha, para curtir uma night diferente: substituí o brilho de uma saia de paetês pelo das estrelas. EITA TROCADILHO PODRE. Não sei como ainda escrevo num blog. hahahahah Mas foi isso mesmo. Sábado à noite apenas deitei na areia e fiquei olhando pro céu mais estrelado da vida. No domingo pela manhã acordei pra ver o sol nascer, tirei fotos desse momento de tirar o fôlego e voltei pra dormir (e perder a hora).

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5) O domingo foi uma correria louca por um motivo doido: perdemos a hora de todos os passeios para conhecer as praias da ilha, simplesmente porque decidimos curtir a vibe do café na manhã, jogar conversa fora, fotografar o pavão louco. Nem acreditei quando percebi que o último barquinho de Praia Brava tinha ido embora. Conseguimos um traslado para Palmas e de lá arrumamos um taxiboat para a Praia do Pouso (por R$ 15), uma praia que todo mundo vai porque faz ligação (via trilha na mata) com a Praia de Lopes Mendes, uma das mais famosas da ilha, e perfeita pra quem gosta de surfar.

De Pouso conseguimos um barco para Abraão (mais R$ 25), na esperança de arrumar um passeio. Como assim, eu vou pra Ilha Grande e não conheço as praias? Demência total. Chegando em Abraão não conseguimos nenhum passeio, óbvio, porque todos saem antes das 10h. Fui catar pessoas para formar um grupo grande e fretar uma lancha para os atrasados que quisessem conhecer a ilha. O plano deu certo e acabei entrando numa lancha ótima, com uma turma muito louca, que bebeu cerveja e tocou pagode durante todo o passeio. R$ 120 por pessoa pelo passeio em volta da ilha.

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6) Visitamos algumas das praias mais famosas: Lagoa Azul, Lagoa Verde, Maguariquessaba e Praia do Amor. Todas lindas, mas as duas primeiras estavam bem lotadas. Tinha até lancha fazendo churrasco ao som de sertanejo. Toda aquela vibe de comunhão com a natureza não rolou. hahahahahah Mas o lugar é lindo e vale a pena visitar. Confesso que fiquei desapontada com a falta fauna do local. Acho que o acúmulo de turistas espanta os animais e a água não é super transparente, então mal dá pra ver peixinhos. Mesmo assim ainda avistamos uma tartaruga. <3

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7) Foram 2 dias muito intensos de sol e mar (estou negra!) e valeu cada segundo, mas é muito pouco tempo pra tanta coisa linda. Depois de um domingo de passeios, voltamos a Conceição de Jacareí na lancha rápida e pegamos novamente a estrada. SETE, eu disse sete, HORAS de trânsito até o Rio de Janeiro. Bizarro, surreal, até agora não acredito.

Dicas, Lições & Considerações Finais

1) A primeira grande lição desta viagem: leve dinheiro, leve dinheiro, leve dinheiro. R$ 200 voam em um dia de passeios e traslados. É de lascar. Se puderem, já comprem a passagem de ida e volta da Ilha lá em Conceição de Jacareí, porque as filas em Abraão são imensas.

2) Para um fim de semana, leve apenas uma MOCHILA com: 1 óculos de sol, uma canga, um biquini, um vestido de praia, 1 short, 1 blusinha, 1 par de chinelos, 2 calcinhas, shampoo, sabonete, protetor solar, hidratante corporal, desodorante e pente (um tênis pra quem quiser fazer trilhas). NADA MAIS QUE ISSO. Não será necessário. (já facilitei a listinha pra vocês). Quem aparecer em Ilha Grande de mala de rodinhas vai sofrer as consequências.

3) Acorde cedo, tome o café da manhã rapidamente e vá fazer passeios. Aprendam com a blogueira aqui que, quem cedo madruga, praias conhece. ahahahaha Quem dorme até tarde, perde o bonde. Todos os passeios saem de Abraão antes das 10h.

4) Ilha Grande não é Porto de Galinhas: não vai rolar mil peixes multicoloridos e snorkeling inesquecível. Isso foi uma coisa que me deixou ~bolada~ com as praias de lá. Não sei se a época do ano não é favorável, mas quase não vi animais marinhos e a água é verdinha e linda na foto, mas na real é meio turva. Fotos com gopro ficam péssimas mesmo.

5) A água do mar é quente! Fiquei besta. Eu realmente curto praia com água gelada e esperava que Ilha Grande fosse tipo Búzios, geladinha, mas para meu espanto as águas da ilha são mornas. Ok, não é tipo Nordeste, mas é tipo água do chuveiro no verão.

6) Se puderem voltem ao Rio na segunda-feira, ou visitem a Ilha em dias de semana. Pegar 7 horas de trânsito não é legal, gente. Barcos para a ilha saem a partir das 8h da manhã até 22h, dependendo do local (vejam a lista aqui).

Ufa. Desculpem o texto enorme. :P

Beijos, Carols