Há dias minha timeline (twitter e facebook) está sendo palco de informações sobre os protestos que acontecem em todo o país. Milhares de pessoas se uniram para reinvidicar mudanças profundas no Brasil e, pela primeira vez na vida, estamos presenciando uma inversão de valores onde o futebol-nosso-de-cada-dia não é mais a bola da vez.
Há dias tenho entrado em todos os links possíveis e tem sido difícil até trabalhar. O clima de manisfestação é generalizado. Todo mundo quer fazer parte de algum jeito. Há dias também estava calada sobre o assunto, porque não me sinto à vontade de comentar publicamente sobre coisas que não domino, principalmente quando eu sei que minha opinião vai ser um eco repetido de tantos outros discursos. Mas hoje, no meu facebook, surgiu um dos textos mais honestos que li até agora.
O texto foi escrito por Duda Buarque, amiga de tantos amigos em comum que nos tornamos amigas por tabela e ela colocou em palavras o meu sentimento diante de toda essa situação. Um texto diferente e sincero que me deu orgulho de ler.
"Faltou pouco para que eu fosse à rua nessa segunda-feira. Não era coragem para sair, porque essa eu tinha. Raça eu tenho nas veias desde que nasci e disso não tenho dúvida. Mas faltou coragem para me encarar.
Ao contrário do que dizia a todos que me perguntavam se eu iria ao protesto, não tinha tanto medo da polícia, do gás nem de ser presa. Eu tinha medo de mim.
Medo de chegar na rua e não saber pelo quê estava gritando – fazer um pacote e dizer que está tudo errado é muito simples, na minha opinião. Ainda é superficial demais.
Eu pensei em ir, olhei pra mim e me senti mal em sair com a blusa de grife que vestia para protestar a favor da igualdade social. Me acovardei de assumir para mim que já trabalhei com política, já paguei meia sem ser estudante e que não abro mão das minhas viagens de férias para fora do Brasil. Não abro mão de vários dos meus interesses particulares.
Nada disso invalida a minha revolta quanto a muita coisa que anda sem jeito, eu sei. Mas senti medo de parecer hipócrita – me desculpem - como tanta gente que eu vi sair enrolada na bandeira verdeamarela. Gente que, no dia a dia, não para nem para um pedestre atravessar na faixa. Que trata os menores com indiferença, quando não com desdém. Que está preocupada demais consigo.
Temi mesmo me parecer menos com aqueles – bravos heróis a quem bato palmas - que tomaram tiros e mais com os que deitaram na cama para gozar da fama. Tive vergonha de pensar que me arrepiaria ao ver isso tudo acontecer, mas só hoje. Só hoje porque antes disso tudo eu nunca fiz nada para que fosse diferente.
Eu tive medo de estar indo para a rua porque virou moda. Porque sabia que, por mais coragem que tenha, não apanharia, não morreria nem daria minha liberdade – por horas que fossem – em nome da pátria.
Antes que você me ache louca, preciso dizer que hoje eu senti muito orgulho de ver o meu povo na rua. Me arrepiei ao ouvir uma pequena multidão cantar o hino nacional caminhando na Paulista – e como foi lindo. Enchi os olhos de lágrimas ao ver alguns dos vídeos e ler umas matérias de gente de verdade sobre o movimento.
Isso tudo é a coisa mais bonita que já vi acontecer no meu país, sim. E eu senti orgulho mesmo. Senti alegria em estar viva e consciente disso tudo. Mas vou voltar a lamentar quando esse calor passar e eu precisar fazer cara feia apontando para o chão, toda vez que precisar atravessar na faixa de pedestres - algum daqueles motoristas, com certeza, está na rua enrolado na bandeira do Brasil hoje.
Eu sinto orgulho de estar em casa agora, mesmo com uma vontade ainda covarde de estar no meio do povo. Ainda, porque não me sinto pronta para isso. Preciso ler mais, entender melhor e me perguntar pelo quê eu quero levantar cartaz, pintar a cara e gritar. E quando isso acontecer eu vou. Pode ser amanhã, na próxima quinta ou daqui a 10 minutos. Eu prometo que vou, mas vou até o fim."
O texto de Duda gerou este outro texto igualmente interessante: "A passeata é contra você, sabia?"
Sempre evito expor minhas opiniões sobre assuntos polêmicos e me informo sobre tudo, mas guardo para mim, porque acho um saco sentir que minhas opiniões podem ofender quem se dói com tudo. Mas também é um saco não ter direito ao silêncio. As duas situações são impositivas.
Sempre me chamaram de chata quando eu abria a boca para dizer que cada povo tem o país que merece. Jogavam na minha cara que eu dizia isso porque fui criada na Europa, mas esse é um argumento obviamente pautado por um sentimento de inferioridade estapafúrdio.
Não precisa ser um gênio para perceber que o Brasil é o reflexo do seu povo sim. Dos "pequenos" delitos, da grande brincadeira com que se tratam assuntos sérios, do jeitinho brasileiro praticado todos os dias, da mania de culpar todo mundo pelas próprias condutas erradas ou simplesmente se eximir da responsabilidade (afinal estamos aí votando, né?), dos preconceitos, da falta de respeito com os outros.
Mas com toda essa mobilização, com todo esse espírito revolucionário com que nossos corações estão inundados, com toda essa sede de mudança que tanto ansiamos, eu só espero que este seja o momento do Brasil mudar de alma. Começar a ser honesto de verdade de dentro pra fora.
Sempre me chamaram de chata quando eu abria a boca para dizer que cada povo tem o país que merece. Jogavam na minha cara que eu dizia isso porque fui criada na Europa, mas esse é um argumento obviamente pautado por um sentimento de inferioridade estapafúrdio.
Não precisa ser um gênio para perceber que o Brasil é o reflexo do seu povo sim. Dos "pequenos" delitos, da grande brincadeira com que se tratam assuntos sérios, do jeitinho brasileiro praticado todos os dias, da mania de culpar todo mundo pelas próprias condutas erradas ou simplesmente se eximir da responsabilidade (afinal estamos aí votando, né?), dos preconceitos, da falta de respeito com os outros.
Mas com toda essa mobilização, com todo esse espírito revolucionário com que nossos corações estão inundados, com toda essa sede de mudança que tanto ansiamos, eu só espero que este seja o momento do Brasil mudar de alma. Começar a ser honesto de verdade de dentro pra fora.
Beijos, Carols






























